Dias de paz
Após a maré turbulenta da semana passada, onde tudo parecia dar errado e eu mesmo comecei a duvidar das decisões que tomei nesses últimos meses, a paz voltou. Os dias têm sido ótimos e de certa forma, bastante generosos. Em muitos aspectos.
Mas como eu me prometi e acho que faço muito bem, detalhes só são relatados aos mais próximos, aos que se envolvem mais com a minha vida, aos que convivem, e aos que de certa forma participam de tudo isso. A uruca alheia já acabou com muita coisa na minha vida e na da minha famÃlia, e essa mesma uruca não terá uma nova chance por esses lados. Olho gordo, pé preto, gente invejosa, mesquinha e do lado negro da força estão todos unidos e cada vez mais distantes. E por lá ficarão. No que depender de mim, pra sempre.
Eu ando muito mais violão do que guitarra ultimamente. Sigamos.
Carlos Adão Apaixonar
Se em tempos de debates polÃticos e eleições se aproximando, ganha aquele que possui o marketeiro mais bacana (o Alckmin deve estar arrependido até a unha de ter economizado a grana que o DEM está gastando no Kassab), injustiça não exaltar o fantástico CARLOS ADÃO.
Carlos Adão é nome certo na maioria dos muros de São Paulo. Com seu indefectÃvel quadrado preto e suas letras verde-limão cuidadosamente pintadas e estilizadas – um estudo de marca comparável a outros nomes de sucesso, como Nike e Coca-Cola – o simpático e falastrão bigodudo espalha a custo irrisório sua marca aos quatro cantos.
Eu acabei de dizer bigodudo, mas há poucos minutos sequer imaginava como seria essa figura (se é que ela existiria de fato). Mas numa rápida pesquisa via Deus, o nome, o vÃdeo e as fotos do sujeito comprovaram que de lenda urbana este senhor só tem mesmo a fama.
Dentre alguns textos encontrados, dizem que as comunidades do sujeito no Orkut pipocam simpatia ao candidato. Também, pudera: se existe alguém que faz um marketing sujo, Carlos Adão é esse cara. Afinal de contas, seus quadrados pretos sempre deixam indefectÃveis respingos de tinta preta por todos os muros e calçadas.
Vale a pena ler toda a história contada no Flickr do Mundano (que eu educadamente avisei que estaria linkando aqui, uma vez que não houve melhor descrição do que a dele para a saga Carlos Adão). Leiam a seqüência relatada no Photostream do cara e acreditem: Carlos Adão Apaixonar. Ou melhor: Carlos Adão Olhar. Ou…
CARLOS ADÃO – POR ETAPAS, originally uploaded by (M)(U)(N)(D)(A)(N)(O).
Se você não for de São Paulo, ele é mais ou menos o Profeta Gentileza da polÃtica. Se você não sabe quem foi o Profeta Gentileza, vá se informar antes de continuar lendo este blog, pois é alienação demais pra minha cabeça…
Colors and post-it’s \o/ \o/
Porque, assim como os comerciais da Sony Bravia, qualquer outro tipo de interação com cores me deixa com cara de bocoió. Genial. Valeu Bova.
Para os olhos
De forma quase infame, assistimos a ambos os filmes no intervalo de uma semana. Infame pois em ambos nossa capacidade visual é posta à prova – claro, em contextos completamente diferentes, com diferentes fins e de diferentes formas. Mas são ambos os filmes experiências. Abaixo, um breve apanhado de cada um deles.

Ensaio sobre a cegueira
Eu e mais 3 pessoas neste paÃs não lemos este livro. Sim, faço a mea culpa, mesmo tentando me redimir tendo lido boa parte do Ensaio sobre a lucidez, porém não terminando, como de hábito em minha deficiente vida literária. Porém, esse déficit em meu repertório não impediu que eu acompanhasse todo o processo de execução, prévias, divulgação e lançamento do filme – ainda mais com uma namorada que idolatra a obra de Saramago, e contava os dias para assistÃ-lo. E assim, fomos ao lançamento do dito.
Eu, enquanto leigo, não nutria expectativas maiores do que as que eu podia alimentar. Ela, ao contrário, estava absolutamente elétrica e esperava que o filme de fato ficasse bem abaixo da obra, porém não a rebaixasse ao já tradicional besteirol que comumente vivenciamos ao acompanhar uma adaptação literária às telonas. O filme começa na Avenida Juscelino Kubitschek, e o que se vê dali em diante é coisa que não se descreve.
Fernando Meirelles (e que fique claro, estamos lidando com a minha opinião, de pessoa que não leu o livro e que gosta de cinema – gosta, mas detesta discutir a fundo certos temas técnicos, filosóficos e toda essa encheção que torna algo que deveria ser diversão em assunto de sala de espera) vai muito além de qualquer coisa que se possa prever. O filme flui bem, mas não flui fácil. É denso, pesado, e a imersão é inevitável. Imersão que causa certo mal-estar aos mais despreparados, mas que choca (em um décimo do que choca a obra, segundo quem leu me disse) o suficiente para que nos juntemos ao cordão dos que perdem a visão e vivem a completa inversão dos valores ditos “civilizados”.
Julianne Moore merece o Oscar, mas não vai levar. A Academia nunca entenderia um filme (e uma obra) como Ensaio. é algo que nenhum yankee tem saco pra digerir, muito menos o direcionamento de mÃdia e de modelos que Hollywood adora exaltar.
Muito cult para os blockbusters, e muito comercial para os pseudo-cults. O filme encanta aos que gostam de uma direção bem-feita (e ousada, que não teme sutilezas e requintes que pouca gente está acostumada a ver por aÃ), atuações primorosas (com destaque novamente, além de Julianne Moore, para Gael GarcÃa Bernal, que está se acostumando em arrebentar quando responsável por papéis de impacto), trilha sonora impecável entre outros destaques.
Vale, e muito, a pena. E prepare o estômago. Mas, se mesmo com o que escrevi acima você ainda não se convenceu, melhor ouvir a opinião do próprio Saramago após assistir a uma exibição-teste do filme. Só não vale se emocionar já – deixe pra depois:
U23D
Esquecendo quase completamente o texto acima, o show (resumido, da Vertigo Tour) é basicamente uma compilação de trechos gravados no México, Chile, Brasil e Argentina, com destaque para o show de Buenos Aires, que claramente predomina sobre os outros na edição.
O registro deste show vale e muito aos que de fato estiveram lá, e como curiosidade aos que nunca assistiram a uma projeção 3D. Eu estive no show do Kiss na turnê do Psycho Circus em 1999, e os efeitos são basicamente os mesmos, e com a mesma qualidade (o que, diga-se de passagem, agradeço a ambas as bandas, que sempre primaram pela qualidade da diversão oferecida).
Como minha história com o show do U2 no Brasil tem proporções épicas, é quase óbvio que o “filme” me trouxe recordaçõs – as melhores possÃveis – sobre aqueles dias e o quão difÃcil foi conseguir estar ali (os fãs da Madonna neste momento devem saber exatamente sobre o que estou falando) e presenciar um espetáculo tão grande e cativante. Não houve economia de energia do público na edição final do show, o que aproxima ainda mais a banda dos seus fãs.
Destaque importantÃssimo: as inserções das animações, e de outras interferências visuais em 3D, que abrilhantam ainda mais a experiência. O U2 destaca-se cada vez mais por uma percepção tecnológica que não trai a qualidade de suas músicas. Uma banda que não vive de passado, e não tem medo de continuar dando o tom de um futuro livre de modismos. Uma possÃvel salvação ao rock, e prováveis destaques futuros ao lado de outros grandes da História da música. Vale a pipoca, a Coca-Cola e o par de Raybans oferecidos na entrada do cinema. Continua um showzásso.
O quinto Beatle
Se o ditado “diga-me com quem andas que eu te direi quem és” fosse de fato aplicado da forma correta, por vezes figuras como esta teriam brilhado muito mais do que de fato brilharam. Há pouco menos de dois anos Billy Preston de fato juntou-se à s outras estrelas e por lá certamente está rindo desse planeta assim como fazia escondido atrás de seu Fender Rhodes ou de seu Hammond.
Há alguns anos eu de fato passei a conhecer um pouco mais do que esse gênio deixou registrado por aÃ. Além de estar mais do que presente naquilo que viria a ser o Get Back dos Beatles, suas gravações com George Harrison são absoutamente irretocáveis. George Harrison, protagonista de um dos registros mais espetaculares do própiro Preston, que está presente na minha edição (obrigado novamente, Yara) do Concert for Bangladesh, e cuja palhinha vocês podem conferir ao final desse post.
Eu só pude conhecer esse monstro (e desde então passei a correr atrás da obra do cara, e o resto é história – esta aqui) após o show que o Eric Clapton deu no Pacaembu em 2001. Das gravações em DVD, Billy estava lá fazendo o que faz no vÃdeo a seguir, com muitos anos a mais, mas com a mesma paixão de quem se enterra na própria música e a vive em cima do palco. No Brasil, ele já não acompanhava a turnê de Clapton (estava em seu lugar Greg Allinganes, que não fez feio). Mas o que encanta na performance de Preston, além da sua tÃpica voz de negão que sabe muito e vive de música (e quando isso acontece, é bom atentar porque o mÃnimo que se espera é o melhor), é a interpretação intensa, a alegria constante de quem teve um fantástico berço gospel e nele fêz-se grande, e suas apresentações ao vivo, que tornavam-se verdadeiros rituais de celebração e alegria.
Um tecladista exuberante, discreto quando ladeado por grandes estrelas, mas que brilhava por si só e pela qualidade de sua música. Assim como Richard Wright, outro que saiu de cena há poucos dias e que deixa uma lacuna que somente os anos serão capazes de valorizar – discreto no palco e dono de outra obra inestimável. Os gênios da música que permanecem entre nós são cada vez mais raros.
Senhoras e senhores, o fantástico e saudoso Billy Preston:
Hoje, o ontem vai embora
Desmontamos nossa cama, e o apartamento dela está a cada dia mais vazio. Não deixa saudade, ela volta aqui pra perto, para que em breve possamos montar o nosso, e nossa vida começar de verdade – vida nossa mesmo, aquela escrita a quatro mãos e que anda muito bem cuidada, crescendo com cuidado e com muita alegria, com pouquÃssimos espinhos e sobrando em otimismo. Sem planos que a gente não consiga alcançar agora, justamente porque quem sonha muito acorda cansado e não aproveita o dia.
Um caminhão de sonhos por sinal está deixando minha casa. Sacos e sacos azuis repletos de papel, lápis de cor, tinta, adesivos, desenhos e mais desenhos enviados por gente que já passou, e muito pouca gente que ainda está. Amizades eternas que acabaram, juras de amor que se perderam por aà (normalmente em outros amores, ou em gente mais bacana, interessante, rica ou inteligente, e claro – por muitas vezes pelo ciúme alheio – um mal que eu sofro naturalmente desde sempre), grandes promessas que ficaram de lado, enfim… várias provas de que a gente não sabe nada sobre o funcionamento da vida – nem a nossa, nem a alheia – e que as coisas de fato funcionam dia a dia, e não a longo prazo, ao menos no que se diz respeito ao destino das pessoas.
Algumas muitas coisas mereceram uma última leitura antes da despedida definitiva. Se a gente é o que a gente vive, vale a pena relembrar bons momentos que se acumularam (nesses últimos 28 anos e meio, o meu caso) antes que eles de fato dependam tão somente da integridade da minha memória – que já foi muito mais confiável do que hoje em dia.
Muitas fotos. Inúmeras cartas. Pastas, convites de casamento, cartões de Natal, de aniversário, passagens de ônibus, recibos, folhetos, recortes. Daria pra fazer uma mala fantástica de recordações de tanta coisa que ficou. De tudo, muito carinho, requintes de descaso por vezes, alguns recados implÃcitos que ganharam a devida conotação ao passar dos anos. Dicas do que estava por vir, reviravoltas inacreditáveis, um bom bocado de saudade de dias que certamente não se resumem a duas folhas de papel e que já se incorporaram à minha História definitivamente. Ficaram as pessoas, algumas poucas, que tiveram coragem de encarar essas quases três décadas de vida por perto – à s vezes mais, à s vezes menos.
E acho que esse ritual também serve pra que nós mesmos vejamos o quanto somos capazes de mudar no decorrer dos anos, e que tipo de pessoas passaram pela nossa vida: o que colecionamos, quem fomos e o quanto mudamos, o que já fomos capazes de afirmar e que hoje nem em sonho farÃamos novamente. E de tantas experiências, notar que de fato TUDO valeu a pena, pro bem ou pro mal, para sermos o que somos hoje em dia.
Da mesma forma como eu fiz questão de guardar esses registros para que num dia futuro eles pudessem ser revisitados e reavaliados, acho que o post que registra a chegada desse dia tem sim sua importância, e será guardado da mesma forma (porém, com uma chance muito menor de causar à minha rinite os males que venho sofrendo nesses últimos dias com essas toneladas de poeira que os compartimentos da minha cama foram capazes de acumular). Quem sabe esse texto não vira o inÃcio de uma boa história pra minha futura famÃlia daqui a algum tempo?
A metáfora da praia e do abismo
Falsa é aquela impressão de que se você for muito além dos limites da terra, acaba afundando no mar. Se você nadar, mas nadar mesmo, se preparar pra todas as dificuldades que estão em frente, saberá que lá do outro lado do oceano existe uma praia te esperando. O mesmo se aplica ao abismo, que amedronta enquanto ninguém constrói uma ponte sobre a cratera, ou uma escada para adentrá-la com segurança.
Primeiro parágrafo filosófico. Eu imagino que essa primeira idéia seja clara o suficiente para explicar os devaneios posteriores. Aventuras pessoais e alheias (muito próximas à s vezes, nem tanto outras) mostram que o mundo não acaba no risco – por sinal, à s vezes esse mesmo risco é bem necessário para que algo enfim aconteça. Algo como conseguir um emprego novo, seguir o próprio caminho, passar do abraço ao beijo e por aà vai.
Tenho notado que a polÃtica do medo por muitas vezes aparece nessas horas: da ameaça de se perder o que é certo, de ficar de fora do sucesso, de deixar pra trás o que foi feito de bom, de nada poder superar o que já foi até ali. Balela. Tudo balela: seu voto vale sim e tudo vai continuar como está, não importa o partido; você não vai morrer de fome se seu salário for substituÃdo por outros investimentos; mais um telefonema pode sim mudar muita coisa, assim como uma retratação, um repensar, uma reconsideração das coisas; as chances não acabam – elas acontecem assim como o dia e a noite. Oportunidades para tudo e para todos sempre hão de existir.
O negócio é nadar, forte e sabendo que existe algo nos esperando lá do outro lado. Às vezes acontecem surpresas no meio do caminho (que podem ser péssimas ou fantásticas), e nem sempre a gente chega onde esperava. Mas sair da areia querendo-se chegar a algum outro lugar é o melhor a se fazer quando o som começa a arder (ou a virilha a coçar). Acredite nisso, e o que mais disserem por aÃ, é mentira. Pois cada um nasce com o próprio umbigo, pra lavar e cuidar – e isso é questão muito pessoal.
Viu? Como se faz!
Excelente dica da Klô. Pra pessoas como eu, como você e como todos os outros seres humanos que viveram na época gloriosa do vinil, o Weezer manda um “como fazer um disco”. É muito bacana notar o quanto imprimir uma bolacha é difÃcil, e quanto trabalho é dispendido na preparação das máquinas. Também linda a preocupação geral com o projeto gráfico, que hoje em dia é raridade, e um fator completamente desconsiderado nos meios digitais. Pra criançada acéfala-emo conhecer um pouco de música (e processo gráfico) de verdade, e ver que o mundo não começou na MTV, na tintura da Marimoon, no penteadinho nojento do NXZero e nas mp3 gratuitas da Pitty que vêm junto com seu celular. Cambada de criança idiota – aprendam:
E pensar que já temos que explicar pra molecada o que é “vinil”…









