Histórico do mês de fevereiro 2007

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E eu achava mesmo que aquele pão com manteiga na frigideira só minha mãe fazia. Assim como acreditava em tantas outras exclusividades quando era pequeno. Do disco amarelo com um carrossel pra recortar à camiseta de carrinhos, eu ainda não havia visto outro como aquele. Não me envaidecia, mas dentro, lá dentro montava meu primeiro tijolinho do eu por eu mesmo. O único da sala a desenhar em papel de seda sem enrugar ou rasgar.

Os muros da casa eram bem altos. A rua perigosa, era o que meus pais me diziam, pra justificar o porquê não podíamos brincar na pracinha debaixo da arvorezona. Brincávamos no quintal então, na garagem, dentro de casa, no chão da cozinha, amarrando barbante do corrimão ao suporte dos vasos. O mundo tinha 3 andares, com chão de carpete, lajota ou azulejo.

E quando o caminhão chegou e levou tudo embora, do disco amarelo ao rolo de barbante, eu não entendi nada. Ficaram o quintal, a garagem e os cachorros. Fomos encapsulados em um apartamento que caberia em duas salas do nosso mundo. Pensei eu que estávamos reduzidos a uma Oceania agora.

Mas pudemos nadar em outros mares. Pisar na terra, no asfalto. Conhecer outros muros, que escondiam mundos misteriosos pro bem e pro mal. E o que não é bem e mal é novo. Então conhecemos o novo.

Pensava eu poucos meses antes que aquele mundo das paredes altas e lajotas cor-de-tijolo seria eterno. Mas descobri que o eterno não existe. Melhor dizendo, existe, mas não da forma como imaginava. Afinal, mesmo que o mundo permaneça o mesmo, ele se adapta. Sobe, desce, gira ao contrário, mas permanece mundo – e então descobri que existia a evolução, a involução e o tempo. Os palavrões, os ralados no joelho, a música rasa, as surras e tudo o que eu não queria no meu mundo. Certas paredes caíram, e quando vi já sabia construir as minhas, com os tijolos que estavam mais próximos.

Alguns ocos, outros trincados. Sabia que certas fortalezas não durariam uma ventania. Que meu continente ficaria exposto por certos momentos. Mas naquele caminhão, vieram também aqueles tijolos – consistentes, resistentes e fortes como a minha infância – que modelei quando conheci a história do povo do mundo sem luz, do rato rico e do seu primo pobre, dos saltimbancos, do Pequeno Príncipe, das músicas de violão e do sono da tarde.

A base das paredes sempre estaria ali, e enquanto restasse um tijolo que fosse, eu poderia construir e demolir as paredes que quisesse. Hoje dizem que minha memória é boa. Eu diria que as minhas memórias é que são – e se não fossem, eu não seria.

Mão na roda

fev
2007
27

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Já posso dirigir novamente. Só falta um detalhe, que acontecerá em dias. E daqui a pouco não vou mais morar longe. Porque não existirá distância.

Só Deus sabe o quanto eu quis que esse dia chegasse.

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Existe uma espécie de inseto. Ou melhor, um bichinho. É, uma pulguinha, que fica pulando de lá pra cá o tempo todo sem parar. Pula na orelha, na testa, no peito, no joelho e pára nas costas – aí você percebe que ela está lá, porque a danada começa a cutucar e você não alcança. E enquanto não encontrar a bichinha ou ajeitá-la pra bem longe, a coceirinha vai aumentando e aumentando até abrir uma cratera nas tuas costas e arrombar tua paciência.

Aí você, ser irracional mas com tele-encéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor pega o primeiro ralador de queijo que aparece na sua frente só pra se livrar da coceira. Sim, da coceira, não da pulga, porque pulguinhas são simpáticas até no nome (mas bem assustadoras ao microscópio). Rala as costas e sente o alívio imediato, seguido de uma dor desgraçada enquanto o sangue escorre.

Logicamente não seria essa a solução mais inteligente. Os mais afobados poderiam sugerir uma deliciosa borrifada de Baygon. Pode funcionar, mas a reação alérgica seria catastrófica. E aí, aquilo que era uma picada da pulguinha vira um campo radioativo.

Caso exista alguém próximo, um tapinha nas costas pra passar. Coisa leve, quase óbvia. Mas como Murphy existe e não somos tão sortudos assim, certamente o salvador da pátria vai enfiar a raquete e lhe arrebentar as costelas. Pior, sairá rindo. E a pulga permanecerá lá, pois ela sim tem sorte e escapou entre os dedos pesados do sujeito.

É a tal da dúvida. As incertezas nos caminhos, As inseguranças que sempre surgem: excesso de zelo, indisciplina com si mesmo. O ser humano gosta da coceira, hipócrita daquele que diz não sentir uma pontada de prazer na dor sutil. Nem é o desconforto, mas a inquietude. Trocar o sono pelo livro, as teclas pelo papel, o lanche pelo almoço, o certo pelo incerto, e dar-se ao prazer de apostar no que acredita. Arriscar algo novo sem parecer idiota, e entregar as cartas em outras mãos. Coça. Coça bastante, mas existe um remédio, melhor que tudo isso e com resultados garantidos:

– Muito simples. Compre um cachorro.

Esaú, Jacó e eu

fev
2007
19

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Eu nunca fui adepto da leitura dedicada. Daquela que você se aprofunda no texto, reflete em cada linha. Pra ser bem, mas bem sincero mesmo, eu leio mal. Leio pela internet, leio o Lance! quando posso, e vez ou outra me empolgo a ler um livro que chame muito a minha atenção. E de que forma o faria? Pela capa, pela repercussão, por algum comentário muito empolgado, enfim. Às vezes eu sigo o empurrão e encaro o desafio.

Busco as páginas de papel amarelo. Páginas brancas me irritam um pouco, mas metade dos meus livros (os quais, todos lidos) possuem páginas em papel branco, portanto não é aí que mora minha dificuldade. A diagramação também pode ser um diferencial: entrelinhas que respeitem o agito e o desconforto do ônibus, os buracos das ruas da cidade, e os meus olhos com astigmatismo.

Meu Saramago permanece inacabado. E não tenho muitas esperanças de resgatá-lo tão cedo. Ele não possui parágrafos, mas em compensação extrapola nas minúcias. Detalhes e mais detalhes que certamente não relevam em nada a história. Lembro que Machadão era assim, mas nunca vi uma foto de Machado sem que fosse aquela que você também conhece. Machado de Assis nasceu velho, há séculos atrás, e como todo senhor de idade explica até o inexplicável e faz uma hora durar três semanas.

Já li até o tal Sidney Sheldon – aquele dos romances xerox, onde quem leu um leu todos. Então li todos os Sidney Sheldon, e há 12 ou 13 anos me pareceu fácil. Entertainment mesmo, coisa de minissérie de TV a cabo. Ação non-stop até um final que beira o óbvio, e segundos depois você esquece de toda a história. Não emociona, não marca, nada. Ocupa espaço.

Não li o Código Da Vinci. Não li Dan Brown, pois me pareceu tão fácil quanto Sheldon. Mesmo com um filme bem do interessante e que valeu a pipoca. A gente cresce, e os gostos mudam. Se não fosse aquele And Justice For All há 17 anos, eu não estaria aqui, ouvindo Lenine e Suzano hoje. Tudo parte de uma semente, e dela nasce ou não um hábito.

Por muito tempo culpei Machado, e seu Esaú e Jacó. Páginas brancas quase transparentes, e letras em Times Black. Um livro com entrelinha de bula de remédio, enorme pra uma criança de 8 ou 9 anos e com uma língua portuguesa que poucos conhecem. Não é culpa da língua, nem de Machado. A culpa também era minha, de lê-lo desatento, desinteressado. Achar que a História do Brasil nunca seria atraente naquele livro impresso em preto e ocre. Os modelos e o ambiente de estudo descuidados contribuiram pra tudo isso, e fez-se a zona.

Talvez seja esse um dos motivos de eu gostar tanto de criança. De querer lotar de cores a vida das pessoas, e de não fugir do meu autor preferido – ainda – que é Carl Barks. Redator excelente, um maravilhoso e completo roteirista (cuja base do trabalho vinha da National Geographic – vejam só que beleza de base essa), e um homem que não precisou sair do rancho pra conhecer o mundo. Foi sim minha leitura obrigatória desde os 4 anos, e é até hoje. Seus quadrinhos ganharam novas cores, e um papel que respeita mais sua obra do que o jornal de sempre. Eu fico feliz.

E se não fosse ele não existiria minha diminuta biblioteca, nem a vontade de mergulhar nos livros da moça. Ou ainda de vez ou outra me encontrar procurando aleatoriamente numa megastore da vida o significado pras minhas confusões. Eu não sei por onde começar essa nova exploração, de um hábito do qual já tenho meio gosto (afinal, eu escrevo aqui).

Meu primo me emprestou o Metallica, e um Guns N’ Roses. Vivia comentando das duas bandas, e depois de mais 3, e mais 5, e então um dia sintonizei a MTV e aquilo me pareceu bem novo, mas um tanto familiar. Passar dos dois punhados aos dois milhares de sons e nomes não foi das tarefas mais difíceis, e disso vieram os hábitos, os gostos e desgostos. Os ouvidos permanecem abertos até hoje.

E talvez seja sim uma boa hora pros olhos fazerem o mesmo. Afinal, com cinco sentidos, quem se contenta em refinar só um certamente pode ser rotulado de preguiçoso. Está aberta a temporada de sugestões, nível básico.

5 anos de 3 minutos

fev
2007
08

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Era um papeleco amassado e esquecido no fundo de uma mochila encardida, com um endereço na web de uma tal de Vanessa, “amiga da Facú” do estagiário nerd da agência. Tinha também uma reportagem no Vitrine, falando desse negócio de escrever pro mundo o que bem entender. E aqui estava eu, desempregado, desiludido e completamente desmotivado pelo meu quase primeiro mês em casa sem emprego. Eu, que não agüento duas semanas de férias sem ficar elétrico. Tinha acabado de concluir meu primeiro site pessoal e então veio a idéia.

– Vou fazer esse treco aí.

Montei uma página cor de vinho, escrevi blog em cima e joguei ali uns quatro parágrafos de cotidiano. Não conhecia as regras (nem sabia que existiam), e passei a fazer esse mesmo procedimento por bons seis meses, até uns doidos me pedirem pra inserir comentários (ahn?) naquela pagineca auto biográfica pseudo-sarcástica. E a coisa funcionou. O resto é história.

Há alguns textos atrás eu justifiquei por A mais B que nunca quis fazer literatura na internet. Fato, simples fato, que confirma-se neste verdadeiro diarinho que se tornou o 3minutos. É um espaço que nunca teve pretensão alguma de se aproximar de outras coisas BEM mais inteligentes e com muito mais qualidade disponíveis na internet. Coisas que aos poucos passaram a integrar não somente minha barra de Favoritos, mas também a minha vida. E coisas que trouxeram pessoas.

Intermission

Eu admiro quem escreve bem. Sério… e quem se propõe a fazer um blog que se leve a sério, que possua qualidade literária constante e afins. Gosto mesmo, e acho que servem de opção a quem não pode sair da frente do micro durante o dia todo. Ler algo com qualidade – seja um livro ou seja um blog – sempre é ótimo…

…e já que essa qualidade toda eu não tenho, ao menos prezo pelo respeito à língua pátria. Este blog NUNCA (e eu repito – NUNCA) se utilizou de miguxês ou qualquer outra modinha virtual estúpida de comunicação pra funcionar. Se a criatividade para composição dos textos não é meu forte, que façamos um brinde às concordâncias verbais e nominais, que aqui sempre foram muito respeitadas.

Afinal, se é pra escrever, que se faça bem, pelo menos.

End Of Intermission

E que diferença de rumo que minha vida tomou naquele 8 de fevereiro…

Eu não vou repetir aqui tudo o que já descrevi em pitadas nesses últimos 5 anos. Mas entre novas turmas, muitos amigos, alguns amores, viagens, brigas, declarações, infindas surpresas (boas e ruins), outro tanto de descobertas, comentários e e-mails de desconhecidos, colunas em revistas de informática, freelas e mais freelas e inúmeros prazeres, este blog sobreviveu. Com textos que se perderam, layouts e mais layouts (afinal essa sim é a minha praia) e outros devaneios, isso aqui virou vício, dos bons. Pra minha surpresa, virou hábito pra outro punhado de pessoas que eu conheço (ou não, nunca se sabe na net…).

Pensar cinco anos disso parece absurdo. Cinco anos de vida aqui não são somente um punhado de palavras. São mudanças de rumo. Inúmeros links que me ajudaram muito, toneladas de mp3 que arrebentaram com o portão de aço da minha cabeça de metaleiro (e que agora são lembrados numa seleção especial de músicas disponíveis no link lá no topo deste post), entre tantas outras coisas. Comecei a escrever e, paralelamente, teclava ao ICQ. Estava pra começar a faculdade. Não tinha metade dos amigos que tenho hoje, e os que tinha eram todos daqui de perto. Nem a curiosidade alheia nem o Google me encontravam. Enfim, cinco anos que parecem distantes por um cannyon hoje, tal a mudança que ocorreu.

E agora tenho aqui uma extensão do meu espaço. Extensão que aumenta de alcance a cada dia, a cada novo visitante que aparece por aqui. Espero eu que ao menos continuem encontrando o que procuram quando chegam nesta página. Na melhor das hipóteses, que surpreendam-se com alguma coisinha. Mas que principalmente sintam-se sempre em casa, pois é isso o que este local se tornou pra mim.

Quem sabe um dia este filho querido até mereça um bolinho…!

Onde o céu acorda

fev
2007
07

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Sete horas. O sono ainda não se foi, e o dia mostra quais serão suas cores. O sol aparece tímido, e em seguida, sem esperar muito, exibe um azul quase sem fim. Existe uma espécie de silêncio, tímido mas presente nas calçadas. As pessoas aceleram lentamente, e o aroma do café, dos perfumes e sabonetes misturam-se a alguns cigarros nos bares da cidade.

As mesmas pessoas tomam o mesmo café. Pedem o de sempre todos os dias. Lêem o jornal, observam o noticiário, pensam em suas vidas. Ameaçam planejar seu dia, mas esquecem ao primeiro gole. Alguns poucos já se preocupam em demasia, reclamam da noite mal-dormida, tocam a buzina com impaciência e estragam alguns dias alheios logo cedo. Sete horas da manhã e as vidas recomeçam.

Horário delicioso aos que trabalham, e de certa forma empolgante (se é que isso é possível, e exclua-se aqui os sonolentos) aos que não trabalham, pois caracteriza-se como um “acordar cedo, porém nem tanto” e permite que o dia renda mais. Tem o mesmo sabor de uma manhã de sábado, porém possui final iminente, uma vez que às oito horas bate-se o ponto, congestiona-se o trânsito e a insanidade da metrópole aflora.

Por isso, aproveite as sete horas. Sente-se à mesa, peça um suco de cajú, uma empadinha e aproveite esse horário em que nem mesmo a Lua parece querer voltar pra casa.

Ê delícia viu…

fev
2007
01

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E desde já MUITO OBRIGADO a todos os que ligaram, escreveram ou lembraram de alguma maneira deste velho senhor aqui. Um alô especial às Caróis (do Rio, o doção de olhos claros; e à Carolzinha lá em Manaus, que me escreveu um e-mail lotado de saudade), à Sandra (minha prima, que me deixou recado num dos poucos momentos que meu celular maledeto deixou de funcionar), às duas amigas/irmãs/meninas de sempre pelo carinho irrestrito e emocionante como só ambas fazem mesmo (uma com um texto fantástico e uma rápida e fantástica conversa, e outra com um e-mail que eu até agora não entendi mas que me fez gargalhar aqui), aos pinheirenses que se superaram na bagunça deliciosa que rolou durante o dia inteiro e me deram de fato uma festa de aniversário e não um dia de trabalho…

…e um beijo um pouquinho mais especial pra menina da rosa na mão e sorriso bobo que esperou até 00h01 pra me mostrar um texto lindo e sem acentos, apareceu na Paulista às 20h e me deixou bem do feliz. Já te disse obrigado hoje, moça?

E ainda vai melhorar.
A melhor parte é pensar que toda essa zona tá só começando…