Masili neles!

Justificando sinônimos

Em Trabalho por Marcelo Masili - 27 de novembro de 2006

Haverá um dia em que pedir algum tipo de reconhecimento e esforço na ordem empregador-empregado não será sacrifício, mas algo tão natural como as trocentas mil quebradas-de-galho que temos que fazer durante todo o ano (e que são sumariamente esquecidas ou ignoradas nesses momentos, pelo simples fato da sua mesa encontrar-se numa sala coletiva, e portanto não ter nome na porta, telefone tocando o dia todo e você, réles mortal, viver almoçando fora). Eu devia aprender o cheira-bolismo com outras pessoas que provavelmente obterão livremente o que eu serei obrigado a conseguir no muque.

Enquanto esse dia não chegar, continuarão lembrando da pior forma possível que sou descendente de italiano e espanhol… azar. O deles.

Zeroooooooooooooo

Em Amigos por Marcelo Masili - 22 de novembro de 2006

Há dois anos eu encontrava pela primeira vez a moça de olhos claros e cabelos molhados, de uma foto desfocada à meia-luz que até hoje guardo com carinho e que hoje em nada me parece familiar à pequena e frágil menina sardenta que insiste em fazer bico para todas as fotos às quais sai – e por falar em fotos, que ensinou não só a mim mas a tantas outras pessoas a olhar o mundo em ritmo de poesia e por outros ângulos, que normalmente os olhos apressados e sem atenção como os de quem não se importa costumam ver (e aí nota-se a primeira de tantas qualidades, tanto na moça como no mundo que a cerca todos os dias), aproximando e focando nuances, cores, sombras, texturas e detalhes, esses mesmos detalhes que fazem de uma amizade comum e aparentemente numérica algo que cresce como bolo quente no forno, com seu cheirinho de fome e com vontade de mais o tempo todo, e que ainda não bastando traz aos ouvidos na voz macia essa mesma poesia dos olhos, seja nas suas músicas ou na dos outros, mas com voz grave e estranhamente mais alta do que seus sussurros habituais, e de forma alguma menos gostosos de se ouvir e dividir, como as infindas mesas de bar e histórias e mais histórias felizes ou tristes (sempre dando-se preferência às felizes, e desejando que infestem nossos futuros brindes com mojitos), que de tantas palavras, alguns desejos e planos para e algumas pequenas mas importantes confidências me fizeram sentir cada vez mais próximo de você e transformar essa mesma amizade em algo tão necessário para a manutenção dos sorrisos locais que sentir saudade dos nossos papos é praticamente uma convenção.

Pronto. Nunca foi tão fácil definir alguém em uma frase.

Mas se precisasse de mais uma, não seria difícil encontrar outras tantas qualidades, lembranças, delícias e detalhes que trouxessem mais um pouco daquilo que você trouxe pra cá. Hoje é apenas o seu dia oficial, neguinha, porque todos os dias restantes serviriam pra te desejar tudo de bom que essa vida pode oferecer: bom como um ingresso na prorrogação, um baú difícil de esconder, um mojito bem gelado ou um churro melequento, um abraço de carnaval ou ainda alguma carta vermelha que se recebe no aniversário. Porque já que hoje eu não posso te dar uma bitoca (termo oficialmente seu), eu deixo aqui esse mimo. Só pra te lembrar que esses dois anos que mais parecem vinte eu quero que durem é a vida toda. E quem sabe, até um pouquinho mais (nunca se sabe quais drinques servem lá do outro lado…). Te amo pra burro, menina.

Given To Fly. Pegue seu balão e divirta-se, neguinha. O dia é todo seu (e esse céu azul lá fora, com esse sol gostoso certamente não são um acaso).

Vinte e poucos anos

Em Vidinha por Marcelo Masili - 21 de novembro de 2006

Ouvindo
Revoluções Por MinutoRPM*

A forma mais fácil de encontrar minha casa era procurando as Brasílias: preta, verde, caramelo, branca, cereja, amarela… tivemos de todas as cores. Mas mesmo com as Brasílias ao fundo, quem em sã consciência imaginaria meu pai sem barriga (ou quase sem ela), ou minha mãe com seus shortinhos indecentes (essa fase durou mais tempo que meu pai sem barriga)? Tem uma tal de tia Gabriela no meio desse povo da qual eu só ouvi falar agora – que perguntei e, ao afirmar isso, estou confiando na memória não tão confiável da minha mãe. Meus primos com shorts tipicamente oitentistas, e minhas primas com cabelos pra lá de diferentes. Meus tios com as mesmas caras de hoje, onde a principal mudança é a cor dos cabelos. Minha avó com cara de minha avó. Meu irmão com cara de bolacha, exibindo o mesmo perfil que eu – como sempre; e eu, perdido, olhando pro outro lado.

Documentos de família: os oitentistas são mais divertidos.

Obrigado Zé Guilherme, por enviar essa foto bizarra para o e-mail do meu irmão ontem à noite. Zé Guilherme é o meu tio – o barbudo grandão da esquerda, que tem as melhores histórias da família, e uma câmera sempre a postos pra eternizar esse tipo de coisa…

* E se é pra queimar o filme, que se queime direito…

Esqueça as palavras

Em Música por Marcelo Masili - 17 de novembro de 2006

Ouvia apenas a rádio no carro. Vez ou outra cismava sem maiores justificativas que queria comprar um disco. Enchia a paciência dos pais até que, num fim de semana qualquer, saíam pra almoçar um lanche no shopping. Antes do almoço, porém, passavam na loja de discos, onde se perdia tateando capas e mais capas enormes, encartes dobráveis e outros encantamentos. Escolhia o que achava mais bonito.

Um desses todos em especial o cativou pela caveira e os ossos cruzados, impressos em tinta branca mas que parecia prata. Duas dobras, as três letras do nome da banda impressas uma em cada folha daquele encarte. Lindo, levou e ao chegar em casa, ouviu por duas vezes seguidas cada uma das músicas. Uma em especial o cativou. Com piano, a única cantada em inglês daquele disco rodou por várias e várias vezes na vitrola. Olhos colados na letra, decorou cada verso e cada estrofe, mesmo não sabendo absolutamente nada do que se falava ali. E pouco lhe importava, pois a melodia o remetia a desejos, a vontades e a sonhos que nunca possuíram voz, muito menos ritmo. Tudo se encaixava agora.

Os anos se passaram. Mudaram os discos, os formatos, os gostos e mesmo assim aquele dia do vinil preto marcou de tal forma sua vida que as músicas em língua inglesa eram as únicas a lhe interessar. Não queria saber do que falavam, se eram sérias ou um amontoado de bobagens. O que valia era a melodia, as sensações, ouvir a cada 3 minutos algo novo que lhe percorresse o corpo, invadisse seu coração, lhe fizesse suar, sorris, chorar, arrepiar. Toda a arte da coisa morava na melodia. “Às letras, os livros”, ele dizia. “Se fosse pra se entender seria poesia. Se fosse pra se interpretar, seria texto. Mas música? Música se ouve, se sente, e se alguém canta alguma coisa junto, é só pra somar à química toda.”

E assim viveu, por anos, ignorando o que lhe diziam. Até que em algum dia, em algum momento difícil de precisar, alguma música da qual não se lembra mais traduziu completamente três minutos da sua vida. Não precisou decorar letra nenhuma, pois ao cantar as palavras que lhe angustiavam, a melodia simplesmente embalava suas lágrimas, da fúria ao cansaço. Voz imperfeita, mas quem se importava? Sua vida era imperfeita, assim como a de qualquer outra pessoa. Entrega completa. Fade out. A respiração volta ao normal. E quando o silêncio chegou, fechou os olhos e descansou. Havia cantando sua melhor canção – letra e música.

Aos oito minutos

Em Cinema por Marcelo Masili - 16 de novembro de 2006

Parece utopia essa vontade de viver intensamente que impera na gente, insaciável e ao mesmo tempo tão volúvel que indiscriminadamente abrimos mão dela quando precisamos atender ao cotidiano, à rotina, à burocracia e à política. Esses dois filmes aqui embaixo, por exemplo: parece besteira adolescente, saudosismo juvenil oitentista. Aí qual a surpresa ao ver que uma das histórias é sobre alguém que dribla essas coisas todas em busca de um dia com os amigos, e outro sobre alguém capaz de mudar drasticamente pelo simples fato de conhecer melhor e com um mínimo de atenção as pessoas que estão por perto.

Agora eu estou aqui, assistido novamente ao filme do Cazuza - aparentemente (e não me parece ficção, ao menos na maior parte do tempo) outra pessoa que não cansava de viver o que fosse. E se foi embora rápido ou não, cada um arca com as conseqüências daquilo que abraça.

Esse ritmo frenético não é coisa fácil de se encarar. Eu que não gostava de dormir hoje sou tão apaixonado pela minha cama quanto por aquelas noites em São Paulo que vez ou outra se repetem. Que era tão moralista e hoje não me importo tanto assim em deslizar por coisas que já me pareceram imaculadas algum dia. Algumas, não todas.

E nem basear a vida em filmes ou músicas. Cada um sabe onde mora o seu romantismo, a quantas funciona seu coração e quais riscos pretende correr. Dá medo encontrar pelo caminho a doença, a desilusão, o desgosto. A poesia, a música, os filmes, as cartas, tudo isso emociona muito e faz todo o sentido. Mas uma coisa parece certa: ninguém deseja viver a vida pela metade – nem só de arte, nem só de diversão. Velho, moço, doente, saudável – a gente quer mesmo é aproveitar o que há de bom nessa vida, o tempo todo. E nenhum esforço pra apagar ou corrigir o que desanda, o que parece não funcionar direito é pouco ou inválido.

Eu tenho medo de algum dia ir embora e deixar alguém que eu tanto quis bem infeliz. Medo de perder os bons detalhes, e de não poder levá-los comigo. Medo que também faz parte de tudo isso, e que contra ele eu perco um pouco mais da minha relação de amor com a minha cama, escrevendo um texto pra desejar dias melhores e mais cores, hoje e sempre.

Bueller. Bueller. Bueller.

Em Cinema por Marcelo Masili - 14 de novembro de 2006

Eu adoro as promoções da Americanas (a loja – o site também, mas estou falando da loja). Adoro garimpar os milhares de DVD’s repetidos que eles colocam em promoção. A sensação é bem próxima a de se garimpar os cd’s da Neto Discos. Melhor ainda é encontrar dois dos filmes que eu me prometi desde sempre adquirir, ambos disponíveis em apenas uma cópia cada. Ruim é notar que você esqueceu seu cartão de débito no escritório, e não pode levá-los após a garimpagem. Engraçado é você escondê-los em alguma prateleira desconexa e torcer para que nas próximas 6 horas ninguém descubra seu trambique. Delicioso é saber, após 6 horas, que seu plano funcionou e você vai pra casa feliz como uma criança, que acaba de descobrir que ganhou aquilo que pediu ao Papai Noel.

Agora posso comemorar o Dia da Marmota todos os dias. E afinal de contas, eu ia perder um dia desses enfiado naquela escola?

Sessão da tarde old-times: I love that.

Novidades à vista…

Em Umbigo por Marcelo Masili - 11 de novembro de 2006

Quando a inteligência assusta

Em Brasilidades por Marcelo Masili - 9 de novembro de 2006

De repente às 9h da manhã chega à mailbox um texto que provavelmente foi escrito após meia-hora de reflexão (ou de qualquer outro sentimento descontrolado que descarregue duas laudas de puro desabafo), e que a mim mais parece um daqueles chiliques de meninos de condomínio, que nunca viram um formigueiro na vida, esbravejando ferozmente sobre política e pregando um colapso completo como a mais provável solução aos problemas da humanidade. Claro que tudo isso ao som de um trance nervoso e sob efeito de drogas gostosas.

Meu estômago embrulhou.

Eu puxei a descarga e não li mais o que se seguiu depois disso. Claro, o e-mail não era somente pra mim.

Capitalistas, comunistas, socialistas, liberais, conservadores, moderados, formadores de opinião, anarquistas, xiitas, céticos. No final das contas acumulamos tudo o que nos interessa – não importa se na cabeça, na boca ou na gaveta, e costuramos nossas bandeiras.

Com elas em riste, partimos para o ataque. A catequização alheia passa a ser nosso objetivo, voluntariamente ou não. Fato é que nos incomoda os que têm opinião contrária e se opõem às nossas vontades. E não me venham com a hipocrisia de dizerem logo de cara que é bom ouvir o contrário para que se possa aprender alguma coisa. Sim, de fato é algo bom (e recomendável) a se fazer, mas num primeiro momento a sensação instantânea é o choque, para que em seguida se contra-ataque.

Claro, se você tiver algum argumento para isso. Ou bandeira. Ou ambos.

Porque normalmente quem se posta com firmeza dessa maneira, ou sustenta uma opinião mais do que formada sobre as coisas, ou brinca de rebelde sem causa e entra gritando no meio do saguão do hospital. Os primeiros normalmente contestam com a classe da realeza: argumentos convincentes e bem-colocados, consistência oratória e uma idéias colocadas de forma crescente, uma a uma, que ao final do diálogo causam uma reflexão digna de grandes mudanças. Não intenciona a lavagem cerebreal, mas aos menos preparados pode sim parecer algo do tipo.

O segundo, porém, é o que me irrita de fato. Destrói as discussões com opiniões céticas e normalmente sem fundamento, toma por base os exemplos mais estapafúrdios, associa feijão com sorvete e deseja a todo custo dar a palavra final numa discussão. É o mentor desses e-mails dantescos, que certamente interrompe o fluxo de trabalho de qualquer local pelo simples prazer de aparecer, e parecer mais inteligente que os outros.

Esse tipo de inteligência não me assusta.

Porém, aquele primeiro tipo – o sutil e respeitoso – me impulsionou a ontem à noite me deparar pela primeira vez com duas prateleiras enormes, repletas de livros sobre política, numa Saraiva da vida. A esse primeiro exemplo eu admiti minha total e completa ignorância sobre o assunto (esse em específico neste caso, mas adapte este texto às suas necessidades). Ao segundo, eu espero em breve agir na pessoa do primeiro, respondendo em três linhas o que não me parece nada inteligente, mesmo que explicado em três páginas.

A ignorância não ofende. Pelo contrário, só admitindo que ela existe e está presente pra se fazer alguma coisa a respeito. É o primeiro retalho dessa bandeira. Nos livros, na mídia, nas mesas, junta-se a isso bons ouvidos e uma boca que aos poucos tome pra si suas verdades, as embase e as defenda. Se for para destruir, que se faça construindo algo melhor no lugar.

Porque aos que possuem uma bandeira dessas sem cor, sem história e sem uma base decente e que traga algum respeito aos que a vêem com olhos críticos, resta deixar que lutem sozinhos por algo que sequer sabem o que seja. Claro que numa batalha dessas, acabarão morrendo com um tiro nas costas, ou fuzilados por um exército de estilingues – que podem até não fazer barulho quando disparam sozinhos, mas aos milhares derrubam fortalezas. É nisso em que eu acredito. Ultimamente, mais ainda.

Já consegui meu naco de madeira, minha borracha e um canivete dos bons.

Manual de funcionamento é estado de espírito

Em Umbigo por Marcelo Masili - 8 de novembro de 2006

Só pra dizer que ando sofrendo do mal de escrever dois parágrafos, respirar fundo, torcer o nariz e deletar o arquivo inteiro. Não é nenhum problema de funcionamento. Pra ser bem sincero, pode-se sim justificar tal imperícia por um certo curto-circuito mental, causada por uma briga entre o meu eu-criança (sempre presente mas nesse momento precisando crescer) e o meu eu-adulto (que precisa de roupas novas, de uma bela faxina em casa e de um pouco de disciplina – mas não muita). Coisa de momento, que logo adapta-se à vítima e vice-versa.

Enquanto isso, seguem os devaneios locais, as auto-reflexões e a tinta no papel. E quem sabe logo eu conclua o terceiro parágrafo – e todo um resto.