O mundo gira e a Lusitânia roda
Foram duas semanas sem poder escrever uma única linha. E se fosse culpa de crise criativa, seria melhor. Mas o fato é que o aparato tecnológico que só quem cuida conhece falhou, não consertaram e mandaram um “te vira” como resposta à s minhas dúvidas. E então mudei.
Mudei mesmo. De casa, de caminhos, de músicas, de idioma, de cabeça, de coração, de idade, de tudo. Duas semanas de castigo, vivendo longe de um monitor e experimentando os sabores que outras palavras podem trazer. Castigo só se for o de abrir mão disso tudo em prol de uma rotina que já não existe mais.
Sendo assim, deixemos as dificuldades pra trás. Assim como tudo o que não interessa mais. A hora é de voltar a arriscar, e por que não, de um jeito diferente e em terrenos até então desconhecidos?
Se é pra voltar, que seja de um jeito mais interessante que antes. Duvida?
Quem precisa de passaporte?
O Corinthians vai atravessar o mundo e chegar a Tóquio. Por dentro da Terra.
Noites e dias
As últimas palavras antes do sono traziam puro carinho. Já era alta madrugada quando dominado pelo sono, entregou-se ao barulho da chuva e à completa escuridão. Enrolou-se então no edredon, não deixando uma parte sequer de seu corpo desprotegida do frio, que não cessava. Tomou cuidado também para que aquelas mesmas palavras não lhe escapassem dos ouvidos, do coração e da memória. E adormeceu.
Ao acordar poucas horas, notou o véu de água que encobria a paisagem assim que abriu a janela. Dias cinzas já haviam embalado suas lágrimas durante muito tempo, mas agora não o afetavam mais. As cores do céu, das árvores, dos tijolos estavam todas num estojo velho guardado em sua mochila. E enquanto arrumava sua cama, aprontando-se para retomar sua vida, descobriu aquelas mesmas palavras guardadas poucos momentos antes espalhadas pelo colchão. Recolheu-as, uma a uma, e guardou-as num lugar onde estivessem visÃveis e cujo acesso fosse o mais fácil possÃvel – assim serviriam como lembrete constante, refúgio nas urgências e remédio contra possÃveis males futuros.
No caminho para o trabalho, o silêncio do sono de outros pedestres era interrompido somente pelos Beatles tocando baixinho em seus fones. E claro, as palavras – agitadas na sua cabeça, no seu peito. As árvores choraram suas flores com a chuva e fizeram na calçada um tapete amarelo que cobria completamente o cimento. Os Beatles não tinham essas cores todas em Liverpool – a lisergia completaria essa lacuna posteriormente. Saudade. Saudade no peito. A voz do Paul e aquele piano triste quase transformam sua paz em sofrimento. Mas nesse momento uma das palavras encobriu a música, a calçada, a garoa. Quatro letras que o transportaram dali para um lugar bem distante, livre de qualquer interferência externa.
E agora estava tudo pronto: as palavras, as músicas, aquele estojo velho, boas memórias – colorir o dia cinza seria bem mais fácil.
Pochete nunca mais*

Um dos meus amigos já foi uma caixinha de plástico azul cor de fusquinha. Tinha 3 botões enormes, uma recepção de rádio terrÃvel e fones de ouvido ajustáveis (mas com um fio pra lá de fino). Sua integridade fÃsica esteve intacta por mais de mês (já que minhas viagens, idas e vindas aconteciam normalmente no banco de trás da BrasÃlia do meu pai), mas quando surgiram as primeiras lesões a morte foi rápida e inevitável. Isso aconteceu em uma época onde eu sequer usava aquilo, e achava que música a gente ouvia no rádio.
O tempo passou, vieram os rockeiros cabeludos, as revistas Top Rock, e o segundo walkman. Memória eletrônica pras rádios, meus primeiros cds virando fita automaticamente após a compra. Já fazia um bom tempo desde a despedida do azulão. Eu não tinha mais carro, e aquele bichinho virou um tremendo companheiro nas travessias da cidade de ônibus, logo cedo pelas manhãs e aos finais da tarde, todos os dias. As fitas se acumulavam no meu armário e o peso da música tornava-se uma expressão bem diferente do heavy metal gravado nelas. Três módulos do meu armário repletos de caixinhas de plástico devidamente catalogadas e bem-cuidadas. O menino gastou, gastou e quebrou. Muita fita, muita rádio, muita viagem, pouco cuidado. As fitas mudaram-se pouco tempo depois pra casa de um grande amigo meu. Mais algum tempo se passou.
ImpossÃvel era tomar aquele ônibus todos os dias à s 5h20, passar o dia todo na escola e voltar à s 17h30 da Estação ClÃnicas pra minha casa numa lata de sardinha sem alguma proteção. Veio o discman. Mesma marca do walkman, com rádio, tudo lindo. Case de cd’s na mala. Dois cases, por sinal, porque em pouco tempo um já não bastava. Abre tampinha, fecha tampinha, abre tampinha, fecha tampinha, e depois de muito tempo, muito elástico e muito cuidado, fica mais um pelo caminho. Mas esse ainda tá aqui guardado… um dia pode até voltar a funcionar.
AÃ, uns bons anos depois, quando as viagens de ônibus não conduzem mais à escola ou à faculdade, mas sim ao trabalho e a qualquer outro lugar incidental, quando a rotina e aquele mesmo barulho de motor e burburinho automaticamente entopem sua cabeça, chega o tal do mp3 player. E ali cabem suas fitas, seus cds, suas rádios, e o bicho ainda aceita vÃdeo, grava voz, fotos, tudo junto… só não faz café.
Pra quem gosta de música, um player desses é tão necessário quanto uma cueca (ou calcinha). Uma bolha de música envolve você e te isola do restante da humanidade. Isso é bom? Depende. Mas indubitavelmente não ter mais que ouvir a fofoca das gordinhas, o sermão do crente ou o choro do bebê dentro do ônibus, ou ainda o buzinasso dos carros, o pagode da banca de cd’s piratas ou os anúncios do açougue equivale a um significativo ganho na qualidade de vida. Porque ficar longe do stress alheio nos restringe ao nosso, o que convenhamos, é necessário, mais fácil de se tratar e evita úlceras. Potencialize o barulho comum à cidade de São Paulo, some-se a isso o fato do meu trajeto diário contemplar duas das maiores avenidas da cidade e aà então teremos um panorama real do tamanho do problema.
Mais tempo de música durante o dia enquanto o carro não chega. Sim, os Marcelos do mundo agradecem muito aos avanços tecnológicos. Não ter mais que carregar fitas, cd’s é e afins é bom demais, fora a economia com o sapateiro e os remendos na mochila…
* Sim, eu carregava os outros apetrechos (os dois primeiros) principalmente em pochetes. Depois evoluà e notei que aquilo não tinha o menor apelo sexual com as mulheres. Aà os transferi para as mochila.
Depois falam do Bush e dos americanos…
A situação polÃtica de um paÃs que reelege Paulo Maluf, Fernando Collor e Antonio Palocci é extremamente preocupante. Uma corja de caras-de-pau, um povo ignorante, sem perspectiva e conivente, uma imprensa tendenciosa e uma Constituição que há muito precisa ser revista – uma vez que foi pensada a funcionar num contexto parlamentarista, e não num paÃs de regime presidencialista.
Não isenta-se ninguém da sujeira, bem como não aplica-se o conceito do polÃtico imaculado. Não é de total culpa a eleição de pilantras por um povo desesperançoso e com necessidades das mais graves e de caráter além do emergencial, como educação, condições básicas de saúde e alimentação e desemprego em massa, mas não isenta-se o completo desinteresse e falta de um mÃnimo de discussão e discernimento da realidade, além de motivos mais do que estapafúrdios para a escolha de seus candidatos. Some-se a isso uma imprensa jamais contestada e sempre apoiada, tida como única formadora de opinião e que dita as leis e procedimentos a serem tomados por todos, e teremos um quadro bizzarro como o configurado nessa madrugada.
ImpossÃvel discutir os resultados independentes de uma democracia estabelecida – e que bom que ela existe, para que possamos mudá-la sempre que quisermos. Mas esse desejo de mudança parece muito distante do resultado das urnas. Exemplifico nos três nomes lá em cima, mas cada um que represente pra si e naqueles que ojeriza essa insatisfação, que eu tenho certeza, não é só minha.
Depois não adianta reclamar que o paÃs não vai pra frente.
Muito menos pedir ajuda a Deus.






